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segunda-feira, 16 de junho de 2014

One In A Million: o sal do GN'R nas chagas abertas dos EUA


Confira abaixo um trecho da matéria de capa da atual edição da revista Classic Rock, que traz longa reportagem sobre o ano de 1989 e sua importância na carreira do Guns N' Roses, e todos os acontecimentos que cercaram o grupo naquele ano.

Por HARRY PATTERSON

‘One In A Million’, de Axl Rose, foi aparentemente composta para ser a visão tacanha de um caipira – o medo, a solidão e a vulnerabilidade de um jacu chegando ao território hostil de Los Angeles. Um caldeirão efervescente de imigrantes, culturas e tensões raciais, todas contidas pela Polícia de Los Angeles, um braço corrupto e institucionalmente racista do estado dos EUA, cujo histórico em relações raciais fazia com que a polícia de Londres parecesse um bando de velhos mijões leitores do [jornal] The Guardian [tal como Rodney King descobriria depois]. Pelo menos essa foi a defesa consistente de Rose desde então.

“Police and niggers, that’s right/Get out of my way/Don’t need to buy none of your gold chains today/I don’t need no bracelets/Clamped in front of my back/Just need my ticket; ’til then/Won’t you cut me some slack?”

“Immigrants and faggots/They make no sense to me/They come to our country/And think they’ll do as they please/Like start some mini Iran/Or spread some fuckin’ disease.”

Seja lá quais tenham sido as intenções subjetivas de Rose – e quem é que já conseguiu decifrar quais elas possam ter sido? – para nós que éramos fãs no fim dos anos 80, a decepção enojante e o sentimento de traição eram palpáveis. Nós agora sabemos que os anos 80 foram a maior hipocrisia do rock. Enquanto sua imagem pública era de bichinhos malhados em academias com água mineral, bronzeados e com permanente no cabelo, fazendo sexo seguro e dizendo ‘NÃO’ às drogas, agora sabemos que os excessos eram tão grandes como eles haviam sido nos cínicos anos 70 e nos idealistas anos 60.

O Guns N’ Roses, contudo, parecia um sopro de ar podre. A coisa autêntica, o cúmulo da marginalidade, e a única banda que havia de fato casado o punk original com o melhor de uma tradição do rock cuja linhagem, ironicamente, poderia ser rastreada até Robert Johnson e Big Bill Broonzy. Daí então ouvir Rose cuspir veneno em cima dos negros, imigrantes e homossexuais fora um soco na cara. Talvez nós fossemos ingênuos, mas o rock não devia defender os oprimidos? Ainda assim, aqui estava mais autentico rebelde do rock dos anos 80 fincando sua bandeira em território tradicionalmente Republicano e berrando sentimentos que você só esperaria ouvir de Pat Buchanan ou de Ted Nugent hoje em dia. Hoje em dia, essa é uma mentalidade ‘Tea Party’ virtualmente de massa. Não tem como ser mais popularzão do que isso.

Ingênuo, também, era acreditar que a comunidade do rock e do metal fosse mais tolerante, inclusiva e humana. Afinal, empatia pelos desiguais deveria ser a segunda natureza de gente assediada por gambés, chefes e pela sociedade tradicional. Pelos homens e mulheres julgados, gozados e repudiados por seus cabelos compridos, tatuagens e rebites, acusados de Satanismo, discos contendo mensagens subliminares induzindo ao suicídio e o colapso moral da sociedade ocidental. Sim, nós éramos superiores. Ou achávamos era éramos. Até aquela música. Uma música regravada por Ian Donaldson, o frontman da banda neonazista Skrewdriver, pelo amor de deus. Todos nós sabemos onde tal preconceito, tal ódio e desprezo ao diferente acaba: pergunte a Sophie Lancaster…

A defesa de Axl era previsível. Falando com o jornalista Del James para a Rolling Stone, ele disse: ‘Eu usei palavras como polícia e crioulos porque você não tem permissão para usar o termo ‘crioulo’. Por que é que as pessoas negras podem se dirigir umas às outras como ‘crioulo’, mas quando um cara branco o faz, de repente é uma grande ofensa? Eu não gosto de fronteiras de nenhum tipo. Eu não gosto que me digam o que eu posso ou não posso dizer. Eu usei a palavra crioulo porque é uma palavra para descrever alguém que é basicamente um entrave na sua vida, um problema. A palavra ‘nigger’ [crioulo] não necessariamente quer dizer negro. John Lennon não tem uma música chamada ‘Woman Is The Nigger Of The World?’ Há um grupo de rap, o N.W.A., Niggers With Attitude. Quer dizer, eles estão orgulhosos dessa palavra. Tudo de bom pra eles.”

Quando o GN’R e o Living Colour ambos abriram para os Rolling Stones em 1989, o frontman do Living Colour, Vernon Reid insistiu em referir-se a One In A Million durante o set de sua banda. As relações entre as duas bandas foram tensas e a equipe dos Stones certificou-se que os dois grupos fossem mentidos à distância. Falando em 2009, Reid disse, “Axl meio que tomou partido do homem branco confrontado. É uma coisa estranha, ‘cops and niggers, get out of my way’. Como é que você sequer coloca os dois na mesma categoria, e qual é a fundamentação disso? Mas quer saber, esse é o tipo de coisa, ele tem esse lado muito autodramático, você ouve isso em Chinese Democracy. Todas as baladas são meio loucamente autopiedosas…”

O controverso disco de estreia do N.W.A., ‘Straight Outta Compton’, certamente estava à altura de One In A Million em celeuma, mas a comparação só ia até aí. Falhando patentemente ao discorrer que a palavra ‘nigger’ era sempre uma questão muito menor do que se levantava contextualmente, seu uso e intenção, Axl foi deixado boquejando o tipo de desculpas ressentidas que agora são a regra entre votantes do Partido da Independência do Reino Unido.

Patti Smith, outro rosto branco, não obteve a mesma reação com Rock N’ Roll Nigger, de dez anos antes. Caso Axl tivesse passado apenas 30 segundos lendo aquela letra, ele poderia ter notado a diferença:

“Those who have suffered understand suffering/and thereby extend their hand/The storm that brings harm/also makes fertile/Blessed is the grass and herb/and the tree of thorn and light”.

Sobrou para o apresentador, comediante e ator negro do horário nobre da TV dos EUA, Arsenio Hall, apontar para o óbvio. “A diferença é muito clara. O N.W.A. usa o termo de modo figurativo, enquanto o Guns N’ Roses o usa de modo negativo e pejorativo – como um senhor de escravos branco o usaria.”

O assalto contra os homossexuais da canção também foi justificado por Axl. Ele disse a Kim Neely em 1992, “quando eu usei a palavra ‘bichas’, eu não estava atacando os gays. Eu tinha acabado de ouvir uma história sobre um homem que fora solto da Prisão do Condado de Los Angeles com AIDS e ele estava se prostituindo. Eu já tive minha cota de lidar com gays agressivos, e eu fiquei incomodado com aquilo.”

Bizarro para um homem que sempre se referiu a Freddie Mercury como um de seus heróis. Realmente distorcido dada sua controversa aparição no Freddie Mercury Tribute Concert for AIDS Awareness em 1992.

Slash, filho de uma mulher negra, achava a música ‘nada legal’, mas reservava sua raiva pela recepção à faixa: “eu não me arrependo de gravar One In A Million. Eu só me arrependo do que passamos por causa dela e do modo que as pessoas interpretaram nossos sentimentos pessoais.”

Duff McKagan, já no fim de 2010, lembrou: “Minha esposa e eu estávamos almoçando em um café a céu aberto cerca de um mês atrás, quando um cara de quase 30 anos me reconheceu de meus dias de GN’R. Ele parou para falar conosco, animado em nos contar ao que ele andava ouvindo e quais shows ele iria no verão. Tudo parecia legal e inocente, até que ele começou a falar de sua namorada e como ela tinha acabado de começar a curtir rock. Ela gostava de hip hop, e os antigos namorados dela eram mexicanos. Mas agora ela curte rock, porque, você sabe, ‘se é de branco, é a coisa certa! ’ Minha esposa e eu permanecemos sem fala, atônitos em silêncio. Eu costumava achar que era por causa da música One In A Million, do GN’R e seu uso de algumas escolhas de palavras racistas. Aquela música era pra ser, até onde eu consiga entender, o desabafo de alguém em terceira pessoa sobre o quão zoada estava a nação nos anos 80. Eu não sei. Eu não teria usado aquelas palavras, mas Axl é conhecido por ser incrivelmente atrevido às vezes… Eu acho que, por um tempo no fim dos anos 80 e começo dos anos 90, que o GN’R era visto como síntese de tudo que era ruim, até como racistas. Eu me lembro e ouvir que a KKK ou alguma facção deles até tinha usado aquela música como grito de guerra. A arte é mal-entendida o tempo todo, mas tente se colocar no MEU lugar no meio desse mal-entendido. Eu, o irmão mais novo de uma irmã com um marido negro que eu admirava. E quanto a Slash e o que ELE deve ter passado com isso na época [Slash é meio-negro – ou meio branco?]”

Seja lá quais forem os acertos ou erros, Axl Rose é certamente um em um milhão. Produto de uma infância fudida, ele eventualmente tornaria-se o obcecado por controle dentre os obcecados por controle, dominando a banda e eventualmente arrancando todo mundo menos ele. Talvez ele achasse que estava escrevendo a arte das ruas para a nova era? Ou talvez seja mais direto, ‘Vamos encarar os fatos’, diz o diretor editorial da editora TeamRock, Scott Rowley, ”é uma música de merda. Eles poderiam ter deixado aquilo fora do disco fácil e ninguém teria reclamado. Como e que a gravadora deixou aquela passar? Não foi por acidente – você não tem como me convencer que ninguém prestou atenção naquela letra e ela acabou escapando – então você tem que perguntar: aquilo não foi apenas um golpe cínico para causar polêmica?”



Fonte: whiplash.net

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